
Cada vez que alguém mais jovem tenta me ensinar alguma coisa relacionada ao uso de tecnologias, e eu sequer sei o que significa um termo, me sinto uns trinta anos mais velho.
Vem-me à mente a imagem, infelizmente corriqueira, do idoso confuso no balcão, a fila se formando atrás, e o atendente: “É bem simples, senhor, é só abrir pelo quê-érre-côudi, e faz tudo pelo aplicativo. O senhor tem o aplicativo?”
Uma vez alguém me falou sua teoria, que jamais esqueci, de que a Natureza, em sua sabedoria, fez as coisas de tal modo que, quando a pessoa chega numa certa idade, o esforço de se adaptar às inevitáveis mudanças se torna maior do que a capacidade de se adaptar, o esforço acaba não valendo a pena – pois se torna um penar – e a pessoa começa a achar que talvez sair de cena não seja assim tão mal. Em outras palavras, as coisas ficam de tal modo que morrer é melhor do que viver num mundo que “não é mais para si”.
Tendo a concordar.
Mas me alarma como o mundo está mudando cada vez mais rápido, e esta “certa idade” talvez venha cada vez mais cedo. Talvez chegue cada vez mais cedo o tempo em que o utensílio já não é compatível às novas e frequentes atualizações.
A programação da obsolescência está cada vez mais curta.
Enquanto isso, o mundo é lindo: a velhice é “a melhor idade”, e palavra de ordem é “acessibilidade”… E em toda parte o otimismo idiota que acredita que o avanço tecnológico e a proliferação de aplicativos “facilita a vida” e gera inclusão.
Ah, mas uma coisa é certa: alguns estão ganhando MUITO DINHEIRO com isso.