Esse tal de Rock Gaúcho

Para quem é filho do Rio Grande, um legítimo gaúcho, não parece difícil entender que a música feita no estado se encaixa em um gênero musical diferenciado, com traços marcantes que o diferenciam do que é feito no resto do país. Muito do que é feito aqui não se pode colocar no caldeirão do “Rock Nacional”, que abarca coisas paulistanas ou cariocas. Estes, mesmo em estados diferentes, entraram numa amálgama que os tornaram uma coisa só. Os gaúchos, por outro lado, trataram de seguir um caminho distinto, de outras influências, e com resultados que por muitas vezes não são apreciados pelo centro do país.

Pois diz que Rock Gaúcho é a denominação dada à música, geralmente rock, produzido no Rio Grande do Sul. Caracterizado pela nítida influência do rock inglês, rock psicodélico e rockabilly, bem como a Jovem Guarda e a revolução da Tropicália, durante sua evolução, o rock gaúcho foi se diferenciando do resto do país por adicionar elementos da música regional gaúcha e da música nativista, criando um “rock” com características locais. Dentre os expoentes deste gênero reconhecidos nacionalmente, pode-se citar: Liverpool, Almôndegas, Kleiton & Kledir, Engenheiros do Hawaii, Nenhum de Nós, Júpiter Maçã, Cachorro Grande, Bidê ou Balde, Ultramen, Walder Wildner e Fresno. Tu conheces algum deles?

As origens

por-favor-sucesso-liverpoolO rock gaúcho tem origens no final dos anos 1960 e início dos anos 1970, mas o termo “rock gaúcho” provavelmente se originou em 1967, com o surgimento da banda Liverpool [1]. Inicialmente uma banda de cover dos Beatles, liderados pelo cantor Fughetti Luz, se inseriam no panorama da música brasileira da época, marcado especialmente pela liberdade proposta pela Tropicália. Ainda em 1969, gravam o disco “Por favor, sucesso”, algo pioneiro para o estado, em uma época em que os únicos gaúchos com algum destaque nacional eram Elis Regina e Teixerinha. Este disco é considerado o primeiro disco de rock gaúcho. Em 1970, participam da produção da trilha sonora do filme Marcelo Zona Sul, mas em 1973 a banda se desfaz. Anos depois, se reúnem novamente com o nome Bixo da Seda, lançando um disco em 1976 com influências do rock inglês mas mais perto do rock progressivo [2].

“Por favor, sucesso” era uma composição de outro personagem importante na cena musical gaúcha da época, Carlinhos Hartlieb. Neto de Theodoro Hartlieb, diretor da Casa Hartlieb, pioneira no comércio musical (instrumentos, partituras e discos) em Porto Alegre, foi compositor e atuou como líder cultural até meados dos 1980. A composição venceu o Festival Universitário de Música de Porto Alegre em 1969 e levou a Liverpool, banda que lhe acompanhava, a gravar seu primeiro álbum. Carlinhos participou do disco coletivo “Paralelo 30”, considerado um marco da música pop gaúcha, ao lado de nomes como Nelson Coelho de Castro, Bebeto Alves, Raul Ellwanger, Cláudio Vera Cruz e Nando D’Ávila, e foi produtor na Secretaria de Cultura do Estado, sendo responsável por vários eventos promovendo a música no Rio Grande do Sul [3].

Rock-Gaucho-ForeverParalelo a isso, desde o começo dos anos 1970, os irmãos Kleiton Ramil e Kledir Ramil, o primo Pery Souza e os amigos Gilnei Silveira e Kiko Castro Neves reuniam uma turma para tocar, com o objetivo de vencer o I Festival Universitário da Canção Catarinense com a música “Quadro Negro”. Depois de gravar a música “Testamento” em 1974, que viria a ser a trilha sonora do programa Opinião Jovem de José Fogaça, o disco “Almôndegas”, lançado em 1975, daria oficialmente origem à banda de mesmo nome. Característica marcante do que se conhece hoje como o “rock gaúcho”, o álbum apresentava a mescla de regionalismo com música pop, era uma espécie de marca registrada dos Almôndegas, e fez escola, influenciando diversos nomes da música gaúcha como Thedy Corrêa (Nenhum de Nós), Wander Wildner (Os Replicantes) e Duca Leindecker (Cidadão Quem). No ano seguinte, a inclusão de “Canção da Meia-Noite” na novela Saramandaia, da Rede Globo de Televisão, presente no disco “Aqui”, trouxe o reconhecimento nacional aos gaúchos [4].

Outra banda de importância na origem da formação do estilo surgiria ainda 1978. O Musical Saracura, composto por Nico Nicolaiewsky, Chaminé, Fernando Pezão (hoje nos Papas da Língua) e Sílvio Marques, trazia uma mistura de influências da MPB tropicalista, do rock e da música regional gaúcha [5]. O grupo era um dos principais do cenário pop gaúcho do período e fizeram um grande sucesso, mas lançaram apenas um LP homônimo, em 1982, antes de se separarem definitivamente em 1984. Uma curiosidade é o fato de eles terem sido artistas pioneiros do videoclipe no Brasil, sendo convidados pela RBS TV, que produzia no Rio Grande do Sul, filmes de atrações nacionais que seriam transmitidos no programa “Fantástico”, em rede nacional [6].

Anos 80

Com a explosão do Rock Brasil na década de 1980, também houve uma expansão do rock no território gaúcho, dando origem a bandas reconhecidas nacionalmente como Engenheiros do Hawaii e Nenhum de Nós, além de destaques regionais como Garotos da Rua, Taranatiriça, Bandaliera, Os Cascavelletes, Graforréia Xilamôrnica, De Falla, TNT e Os Replicantes. Inclua-se ainda Nei Lisboa, Nelson Coelho de Castro, Bebeto Alves e Raul Ellwanger, como representantes da chamada “música urbana”, que também traziam reflexos do nativismo.

No ano de 1985, a coletânea “Rock Grande do Sul”, produzido pela multinacional RCA, possibilitou que o rock gaúcho atravessasse de vez as fronteiras em direção ao resto do país. A coletânea foi uma forma da gravadora testar a popularidade de alguns artistas gaúchos em que pensava investir, em especial os Engenheiros do Hawaii, que se mostraram extremamente populares nos anos seguintes.

Em 1986, a emissora de TV RBS exibiu um documentário sobre o Rock Gaúcho. O documentário trata de bandas como Garotos da Rua, Bixo da Seda, Taranatiriça, Os Replicantes e outras que tornaram-se referências para a referida cena musical.

Anos 90

Nesta década, surgem bandas como Tequila Baby, Reação em Cadeia, Pata de Elefante, Ultramen, Cidadão Quem, Acústicos & Valvulados, Maria do Relento, Comunidade Nin-Jitsu e Papas da Língua, e se nota a adição de estilos como hip-hop, reggae e samba rock na mistura do rock gaúcho.

Os Papas da Língua, em especial, com seu estilo mais pop, tiveram diversas canções escolhidas como trilha sonora de programas da Rede Globo de Televisão, se tornando muito popular no centro do país, em vista desta exposição.

Em 1997, no entanto, é o ano de destaque nesta década para a história: é lançado o disco que se tornaria a segunda pedra fundamental do rock gaúcho, “A Sétima Efervescência”, de Júpiter Maçã, codinome do multi-instrumentista e compositor Flávio Basso, ex-integrante dos Cascavelletes e do TNT. Referência para as gerações seguintes, é considerado uma das obras-primas do rock gaúcho. De fato, em votação feita por cerca de 50 músicos, críticos, jornalistas e produtores, para um matéria da revista Aplauso em 2007, o disco foi eleito o melhor álbum do rock gaúcho [7]. Foi também eleito pela revista Rolling Stone um dos 100 melhores álbuns brasileiros de todos os tempos, ficando na 97º posição.

Rock Gaúcho hoje

Bidê ou Balde, Acústico MTVA partir dos anos 2000, se vê o rock gaúcho como um estilo reconhecido, abrindo suas fronteiras para diversas influências do pop/rock no Brasil e no mundo, mas sempre mantendo um pé nas raízes da música do estado. Bandas independentes como Bidê ou Balde, Cachorro Grande e Fresno, surgidas no final da década passada, fazem sucesso no centro do país, impulsionadas pelo poder da Internet.

Um dos eventos que pode ser considerado uma marca do reconhecimento do rock gaúcho como estilo próprio e independente em nível nacional é o show Acústico MTV: Bandas Gaúchas, concerto promovido pela emissora de TV MTV em 2005, que reuniu apenas bandas representantes do gênero.

Em 2013, a Orquestra de Câmara da ULBRA revisou diversas canções no concerto Clássicos do Rock Gaúcho [8], com participações de nomes reconhecidos da música gaúcha como Carlo Pianta, Frank Jorge, Jimi Joe, Júlia Barth, Júlio Reny, Márcio Petracco, Pedro Veríssimo, Ricardo Cordeiro, Tonho Crocco e Wander Wildner, em arranjos para a orquestra.

Referências

  1. Arthur de Faria. 1963-2002: a ascensão & queda do rock do IAPI. Rota Digital Sul.
  2. Orlando Levi. Resumo da biografia de Fughetti Luz, por Gilmar Eitelvein. Shvoong.
  3. Juarez Fonseca. Biografia de Carlinhos Hartlieb. Last.FM.
  4. Gustavo Brigatti. Projeto relança “Aqui”, disco dos Almôndegas. RockGaúcho.com.
  5. Juarez Fonseca. Saracura de volta, 30 anos depois. Zero Hora.
  6. Ícaro Bittencourt. Tangos & Tragédias. Música Esparsa.
  7. Aplauso – Cultura em Revista. Edições Anteriores – Em órbita pelo mundo.
  8. Orquestra de Câmara da ULBRA. Clássicos do Rock Gaúcho. CompreIngressos.com.

Colabora com esta história, deixando mais informações nos comentários deste artigo. Viva o róque!